13 fevereiro 2009
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criado por shintoni
12:31 — Arquivado em: 

Comentário por Adir — 13 fevereiro 2009 @ 16:01
Sexta-feira 13
Hoje, ao virar o calendário, deparei-me com a data – sexta-feira, 13 -.
De pronto, veio à minha mente posicionamentos remotos em relação ao dia que, segundo sempre se soube, anunciava momentos ruins.
Lembro de uma das minhas irmãs, a cada início de ano, checar o calendário anual e verificar se trazia alguma sexta-feira 13. Lembro também que, sempre próximo a essa data, chamava nossa atenção com prognósticos aterrorizantes sobre esse dia fatídico.
Hoje, creio que bem mais madura, isso não mais me afeta, mas, de súbito, como se eu não pudesse contestar, noto que minha postura em relação ao dia vai assumindo, sem que eu perceba, conotações de alerta.
Temo iniciar qualquer tarefa prazerosa intuindo que não dará certo.
Vejo-me andando de um lado para o outro, sem nada fazer, com medo mesmo de enveredar-me por armadilhas silenciosas enviadas pelo ar.
Vejo-me calada, com aquele temor específico de que qualquer som por mim emitido possa traduzir-se em discussão ou mal-entendido.
Vejo-me em constante alerta e precavendo-me de qualquer ato desabonador à paz.
Meus temores, imaginados esquecidos, tomam força maior ao constatar que além de sexta-feira 13, ainda é dia de lua cheia, o que assinala maiores expectativas negativas.
Penso de repente que tudo caminha de acordo com minhas lembranças e tento estabelecer metas reais para o meu dia.
Constato no entanto, que apesar de todos os esforços não consigo dar termo a essa apreensão velada, a essa negatividade firmada em recordações infundadas de muito tempo atrás.
Enfim, que a sexta-feira 13 se vá e eu possa voltar a viver sem esses medos.
Comentário por Adir — 13 fevereiro 2009 @ 16:14
Cito dois livros que marcaram minha adolescência:
Gina - de Maria José Dupré
e
Jóia - de Emi Bulhões Carvalho da Fonseca
ambos me fizeram ver a vida como ela é, sem preconceitos de qualquer espécie. Recomendo.
Comentário por Adir — 13 fevereiro 2009 @ 16:26
Nasceu a princesa
Nasceu para ser princesa, no mais alto estilo da palavra.
Já na barriga, dava ares de sua imponência, pela delicadeza e beleza dos trajes que, cobrindo o corpo da mãe, serviam de invólucro para seu porte destacado.
Nasceu com o raiar do dia, nas primeiras horas da manhã, quase não dando tempo à mãe e aos médicos para os preparos necessários ao seu nascimento.
Esperada que era, pela família grande que há muito não ouvia o choro de um bebê, foi anunciada como notícia de jornal pelos corredores da Empresa onde a mãe, na véspera de sua chegada, tinha cumprido longas seis horas extras.
- Extra! Extra! Nasceu a princesa!
Nasceu forte e decidida, com o narizinho em pé. Fofa, cabelinhos encaracolados, foi se tornando ao longo do tempo a pedra preciosa do grupo. Foi abduzida por todos e para todos, tamanho o seu requinte.
Mais crescidinha, na escola seu vocabulário especial, contrário à mesmice dos coleguinhas, chamava a atenção dos mestres que não sabiam o que fazer para retomá-la às bobagens corriqueiras. Sempre amou estudar, ler e pela vida foi trilhando caminhos e estrelando suas peças, sempre com todas as vitórias.
Comentário por Adir — 13 fevereiro 2009 @ 17:45
Meu passeio a Paquetá
Deixando a casa, preferi tomar um táxi por ser mais confortável e não precisar me preocupar com o estacionamento para o carro.
Subi as escadas do viaduto da Praça XV com toda a elegância e descontração, observando as pessoas que, como eu, iriam fazer o trajeto.
Comprei o ingresso para o Catamarãs com facilidade, pois não sendo final de semana, mesmo em época de férias, tudo fica tranqüilo. Não esperei muito pela barca, deu tempo de ir ao banheiro e de tomar um refrigerante. Aprecio tudo nesses passeios pela Baia de Guanabara. Até a loja de souvenires ganha um aspecto diferente aos meus olhos. A barca, imensa, chega imponente e seu apito avisando a chegada, é como música ritmada com minha expectativa. Entro e logo vou à proa – tenho mania de me fotografar na frente, ao vento, com os cabelos em desalinho -. Já, lá dentro, escolho o lugar para sentar-me e acomodo minha pequena bagagem no banco ao lado. Tenciono lá permanecer apenas por umas quatro horas, razão pela qual dispus-me a trazer apenas um leve casaco e lenços de papel especiais para suportar a coriza que a aproximação do mar me provoca. Observo os vendedores ambulantes que várias vezes ao dia fazem o mesmo trajeto – do vendedor de sorvetes e biscoitos ao de bijuterias – todos percorrem automaticamente o início e o fim da barca, em busca de compradores que diminuam o peso de suas bagagens, revertendo-as em ganho para o seu sustento.
Escolho um brinco colorido com uma pequena pena azul na ponta, para combinar com as calças e túnica esvoaçantes e de cor azul piscina com que estou vestida. Não deixo de comprar também, um pacote de biscoito Globo salgado, que venho saboreando em silêncio, ao tempo em que desfruto a beleza da paisagem. Noto que meus companheiros de viagem são os tipos mais diferenciados.
Na minha frente duas adolescentes papeiam agitadas e sem a preocupação de que outros as escutem, falam de suas experiências amorosas, sem qualquer pudor. Uma senhora franzina, de cerca de setenta anos, sentada do lado direito das duas, mostra-se incomodada com a conversa e abre e fecha a revista que tenciona ler, com gestos ríspidos de quem não gosta do que escuta. Do outro lado, à minha esquerda, um grupo com quatro estrangeiros, fotografa e filma toda a Baía, não contendo gritinhos de admiração com a beleza ao redor.
Um senhor em cadeira de rodas amparado pela filha, pouco atrás de mim, pergunta insistentemente e repetidamente sobre o horário da consulta médica. Outra senhora, com dificuldade, vai remando ao balanço da embarcação e passa por nós em busca do banheiro. Lá na frente, um casal de namorados, alheio a tudo e a todos, não percebe a hora da descida e é preciso ser chamado pelo fiscal.
Após o apito anunciando nossa chegada à Ilha, vamos todos em fila indiana num percurso de cores e cadências, atingir o outro lado, onde o trenzinho local, as charretes, bicicletas e outros ambulantes, encontram-se a nossa espera.
Passo por todos e dirijo-me à Igreja de São Roque, bem na entrada da Ilha, imponente na sua simplicidade, parecendo receber a mim, exclusivamente, de braços abertos.
Cumpro meu ritual de visita e calmamente, seguindo a paz do local, faço minhas orações.
Aqui estou eu, novamente em Paquetá. Embora estejamos no verão, o dia não está muito quente. O Sol observa a paisagem de longe e fica indeciso de se mostrar. Sento num dos bancos de madeira maciça embaixo de um coqueiro milenar e fixo na mente a natureza plena. Compro uma garrafa de água mineral numa das carrocinhas de ambulantes que circunda a praça e volto ao banco para terminar de saborear meu biscoito Globo. Refestelo-me com o ar, com o barulho das ondas batendo no mar calmo.
Decido alugar uma charrete para reviver meus passeios de infância, sem deixar de fora nenhum local.
O condutor, sem querer saber se lá estive outras vezes, cumpre a rotina que lhe ensinaram e anuncia cada passagem, no ritmo da puxada dos burros. Passamos pelo Museu de Artes, pela Casa de José Bonifácio, pela Academia de Letras, pela Pedra da Moreninha e pela árvore O Baobá, originária da África, chamada – Maria Gorda -. Aí peço ao condutor da charrete que pare por uns segundos e abraço aquela árvore com dificuldade, pois de tronco tão largo, parece nos engolir no toque. Todo o percurso é coberto por flamboyant . O Parque Darke de Matos parece nos tirar desse mundo levando-nos a distâncias não imaginadas por entre árvores de todos os tipos. Uma delas parece conter no tronco, uma casa, onde não posso deixar de entrar e admirar o outro lado do parque que termina no mar. Só essa experiência de descobertas já vale o passeio.
Resolvo tomar o trenzinho para ir ao Mirante, no Morro da Cruz e apreciar serenamente, a vista parcial da Ilha. De repente, dou de cara com dois sagüis, típicos da região. Filmo sua fugida, como coisa preciosa nas minhas recordações. Já lá se vão quase duas horas e meu estômago anseia por alimento. Prefiro um sanduíche de dois andares ao almoço tradicional, pois assim, posso após um breve descanso, alugar uma bicicleta monark de pneu balão e por pelo menos duas horas, sentir o sabor dos meus passeios à tardinha na rua em que morava quando tinha quatorze anos.
Comentário por Adir — 13 fevereiro 2009 @ 18:02
Os quinze anos
Queria, porque queria uma festa de quinze anos.
As coleguinhas de turma da mesma idade que aniversariavam em datas próximas, já haviam esquematizado suas grandes festas, guardando em sigilo os detalhes mais preciosos para que não fossem imitados umas pelas outras. Sabedoras de que seu aniversário estava próximo, não se cansavam de indagarem sobre o convite.
Os convites das outras, que mais pareciam obras de arte , já estavam em seu poder e olhando-os , seus olhos brilhavam de excitação a imaginar a arte gráfica do seu, para o próximo mês.
Seria todo branco e rodeando sua foto gigante em perfil, teria seu nome repetido várias vezes, em letras em caixa alta manuscrito, de cor dourada em relevo.
O convite anunciaria seu dia de princesa e o cartão individual para a festa ficaria preso a um clips logo acima dos nomes de seus pais, no lado de dentro. Essa primeira parte já estava resolvida.
Restava agora nomear os convidados, cerca de cinqüenta amigos, além da família pequena que, por certo, viria de São Paulo para a festa. Prosseguindo, desenharia o vestido branco de corpo comprido, bordado com pedras e vidrilhos brilhantes formando na frente um coração, deixando parte do seu pequeno busto à mostra. A saia, rodada em duas abas, lhe daria um ar de rainha e com certeza, o farfalhar do tecido ao caminhar, soaria como música em seus ouvidos.
A festa teria que ser no clube especializado para tal e conceituado pelo grande número de contratos para esse fim. Não teria o que pensar. Seria nesse local.
De perto, faria questão de escolher o buffet. Estando no verão, a mesa de frutas em cascata, não poderia faltar e os fondants ornados com minúsculas flores de cor rosa dariam um requinte especial a sua festa.O bolo deixaria a cargo de sua mãe, especialista na questão.
O baile e a dança com o pai à meia-noite teria a música de seus sonhos e para tal ensaiava toda noite em seu quarto, após o jantar.
Queria porque queria uma festa de quinze anos. Não agüentava mais, estando a data tão próxima, ouvir o questionamento das colegas sobre o convite.
Naquela noite, surpreendida em choro por sua mãe, não pode explicar o porque, pois sua mãe não entenderia.
Queria porque queria sua festa de quinze anos, mas como tê-la se, nem ao menos um vestido apropriado para a festa das amigas, sua mãe poderia comprar?